terça-feira, 19 de março de 2013

Feridas do passado

Ao se dar conta do que havia feito ela se desesperou, ao olhar para o chão viu um buraco negro sem fundo. Na tentativa de se proteger tateou o homem até encontrar seus dedos e os entrelaçou nos seus. Seu pânico era demasiado amedrontador, o homem que já estava em choque com tal ação da moça sentiu seu coração paralisar ao ver a expressão facial dela. Ela arqueou suas sobrancelhas, arregalou o máximo que podia os olhos e abriu a boca, mas o intrigante é que ele olhava para o chão e não enxergava nada além do piso de taco gasto cheio de arranhados e poeira. Toda a situação levava ele a pensar que ela gritaria novamente, porém por mais tempo e não, não saiu nem se quer um "ai" dali. Foram cinco segundos assim, até que a campainha tocou e ela olhou para a porta e novamente para o chão, não havia mais nada.
Da onde estava pode enxergar as letras que estavam na carta por mais que fossem pequenas.
- Ju-li-a... Julia.
Leu em voz alta pausadamente e depois reafirmou lendo novamente. Julia era o nome dela, mas por mais estranho que fosse ela não lembrava. Afastou-se do homem e foi até o móvel da sua televisão, ele era comprido e branco então também era utilizado como escrivaninha. O cheiro de café, álcool e cigarro vindo dela chegava a ser insuportável até mesmo para Julia.
- Achei!
Pegou o papel manchado de café que estava debaixo de uma pilha de roupas no móvel e a caneta falha que estava ao lado. Escreveu diversas vezes Julia e colou na porta da entrada. Frustrada com o que via a sua volta em um pulo foi até a cama amarrotada, sentou-se e suspirou. Olhou a sua volta depois direcionou seu olhar para o travesseiro, logo o levantou. Estava ali, o canivete de seu avô. Neste momento foi impossível evitar as lembranças. Então começou a recordar de seu passado fúnebre. Ela morava com sua mãe, seu avô e irmão. Todo dia sua mãe sumia durante as tardes e voltava dias depois, seu irmão por ser mais velho fazia o mesmo só que costumava voltar sempre antes. Era sempre Julia e seu avô.
- Querida venha aqui.
Sempre que ouvia estas palavras seu estômago embrulhava e sentia suas pernas cambalearem sem fim. Não era questão de escolha, então ela se aproximava do velho.
- Sente-se no meu colo.
Naqueles tempos aos seus doze anos ela já havia aprendido a ser obediente e o que lhe custava se não soubesse. Portanto sentou-se sem hesitar. O velho tirou do bolso de seu macacão um canivete antigo e enferrujado com as iniciais dele "RL". Puxou o vestido da menina até suas coxas ficarem a mostra, nesse momento era nítido as cicatrizes mal curadas e nojentas. Ela se arranhava por dentro, triturava seus dentes rangendo imperceptivelmente e engolia a quantidade imensa de saliva que era produzida em sua  boca.
Ele se limitava a abrir um largo sorriso e começava a fazer sem parar cortes nas coxas dela, quando era o suficiente então as apertava e revirava os olhos de uma forma que a coitada segurava o vômito preocupantemente. Após momentos de agonia ele a empurrou e levantou-se da cadeira, o pesadelo parecia parar ali até ele começar a tirar a sua roupa.
- HMMMMM!!! URRRRRR!!!
Interrompeu o homem que tentava falar, ou ao menos chamar sua atenção. Ele estava com o olhar preocupado, porém conseguiu. Julia despertou-se de sua péssima lembrança e olhou para baixo. Lá estava ela repetindo a ação, suas coxas não eram mais visíveis diante de tanto sangue e parecia que a dor deixava sua cor mais viva, não era um vermelho qualquer.
O homem deixava claro sua ânsia pela morte, seu olhar suplicava desesperadamente por isso e não era pela dor que ela causou nele e sim pela dor que ele sentia ao ver a dela.


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